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A Ceia Pascal

1. A CEIA PASCAL

A última ceia realizada por Nosso Senhor com seus apóstolos, segundo o antigo rito judeu, foi uma “Séder”: uma solene refeição sacrifical pascal.

Por que esta formação explicando, não o sentido, mas o conteúdo da ceia pascal? Como formação, tem por finalidade antes de tudo aprofundar nosso conhecimento dos evangelhos, tornando-os mais vivos para nós. Os evangelistas omitiram muitos pormenores que, para seus contemporâneos judeus, não precisavam ser mencionados. Por exemplos: por que Nosso Senhor toma o cálice duas vezes no relato de Lucas (Lc 22, 17-20)? Por que foi recitado um “hino” antes de os apóstolos deixarem o Cenáculo (Mt 26, 30)? Estes e outros detalhes adquirem novo sentido à luz da tradição judaica.

A ceia Pascal aprofundará também a nossa compreensão das cerimônias litúrgicas da Semana santa e Páscoa, repletas como são de figuras e alusões no Antigo Testamento. “Esta é a solenidade pascal, na qual o verdadeiro feliz, que despojou os egípicios e enriqueceu os hebreus” (canto do Exúltet, da Vigília Pascal, aludindo a Ex 12)… “Cristo, nossa Páscoa, foi imolado: festejamo-lo com o pão ázimo da sinceridade e da verdade” ( I Cor 5, 7-8, aludindo também a Ex 12).

Do mesmo modo, nossa participação na Missa será enriquecida se compreendermos mais claramente o momento que Jesus escolheu para instituir a Sagrada Eucaristia. A Ceia Pascal é uma preparação, em forma dramatizada, para o Tríduo Sagrada que centraliza nossa atenção na essência do mistério pascal: o Cordeiro imolado que nos libertou do cativeiro com seu sangue. E assim, isto nos faz viver cada Missa de maneira mais completa, pois a Última Ceia não foi apenas o ápice, o termo de chegada de um velho rito, mas o começo, o ponto de partida de um novo. Santo Atanásio disse que, “quando junto comemos a carne do Senhor e bebemos o seu sangue, é a Páscoa do Senhor que celebramos”. A cerimônia da Ceia Pascal possibilita-nos encenar os acontecimentos da Última Ceia como uma meditação, preparando-nos para a plena realização da Última Ceia na Missa.

Deus ordenou que a primeira Páscoa fosse comemorada solenemente (cf. Ex 12, 1-28): o povo teria que sacrificar um cordeiro e comê-lo com pão ázimo e ervas amargas (uma lembrança da saída precipitada do Egito, em que não houve tempo para fermentar o pão), em agradecimento pela liberdade, que era dom de Deus. Esta festa anual da Páscoa tornou-se um fato de primordial importância na religião de Israel. Aos poucos, o ritual tornou-se mais rico; aos poucos, também, a Páscoa veio a ser considerada não somente ação de graças pela bondade de Deus no passado, mas também profecia do futuro: pois, assim como, uma vez, Deus tinha livrado o povo do cativeiro, assim também Ele os conduziria, a seu tempo, a um novo Êxodo, na era futura do Messias. “A Páscoa foi, portanto, não só uma lembrança mas uma profecia”, escreveu D. Gaillard. Os atos divinos no passado eram uma garantia do cumprimento das promessas messiânicas para o futuro.

No tempo de Jesus, a refeição pascal não se realizava mais de pé e às pressas (cf. Ex 12, 11), mas ao redor de uma mesa festiva. Em grande contraste com aquela noite de fuga, 1200 anos antes, a atmosfera estava afora impregnada de paz e alegria espiritual – embora essa paz fosse também periodicamente turbada pelas tensões de tempos de revolta ou de guerra. Mas o sentido real da celebração permaneceu o mesmo através dos séculos: sacrifício e banquete sacrificial de ação de graças.

Agora podemos ver por que Jesus escolheu este rito como prenúncio e sacramento do seu sacrifício. Esta festa familiar, celebrada pelo povo escolhido como um todo unânime, tinha todas as qualidades para poder ser transformada na grande festa da comunidade cristã, estimulando a caridade e unindo estreitamente os corações dos que se alimentam do Pão repartido e do Vinho partilhado.

A primeira “passagem” do Senhor foi comemorada com a Ceia Pascal; a segunda, o sacrifício do Cristo, nossa Páscoa, torna-se presente na Missa, a Ceia Pascal do Novo Testamento. No sentido de “passagem”, a significação do sacrifício de Jesus torna-se clara: “Este é o meu corpo que é dado por vós” (Lc 22, 19), para que possais passar da morte no pecado para a vida em Deus. Nesse contexto, torna-se claro que o novo sacrifício teria também seu banquete sacrificial: “Se não comerdes a carne do Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a Vida em vós” (Jo 6, 53).

Como vimos acima, celebrando a Ceia Pascal com seus discípulos na noite de quinta-feira santa, Jesus antecipou, por um dia, a Páscoa oficial dos judeus. Na sexta-feira santa, à mesma hora em que os cordeiros pascais estavam sendo sacrificados no Templo, o Cordeiro de Deus, nosso Cordeiro Pascal, consumou seu sacrifício na Cruz (cf. Jo 19, 35-36). Encontrava-se, nesse momento, símbolo e realidade.

A Antiga Aliança entre Deus e o povo escolhido foi ratificada pelo sangue de muitas vítimas (cf. Ex 24, 3-8). A Nova Aliança, já anunciada por Jeremias (Jr 31, 31), era agora ratificada pelo sangue de uma Vítima perfeita (cf. Lc 22, 20), não mais pelo sangue de touros e de bodes (Hb 10, 4). O cordeiro figurativo, portanto, foi assim substituído pelo verdadeiro. O sacrifício tornou-se perfeito (cf. Hb 10,10).

Esse mesmo sacrifício, prefigurado na Páscoa dos judeus, plenamente realizado no Calvário, é renovado em todas as Missas. Todas as vezes que nós, cristãos, o povo escolhido da Nova Aliança, comemos o pão e bebemos do cálice, celebramos o mistério Pascal, “anunciando a morte do Senhor, até que Ele venha” (I Cor 11, 26). Como diz S. João Crisóstomo, em cada Missa, “é o Cristo que aqui e agora celebra a Páscoa com seus discípulos. E a mesa do altar não é senão a mesa da Última Ceia.

2. A CEIA PASCAL NO TEMPO DE JESUS

A Ceia Pascal, a partir do núcleo do ritual exposto em Ex 12, 1-28 e Dt 16, 1-8, desenvolveu-se no decorrer dos séculos. Desde os tempos de Esdras (450-aC), foi elaborando-se um cerimonial minucioso, finalmente depositado no Talmude (no Tratado Pessahím, da Mishná) e observado até hoje. Na época de Jesus, portanto, deve ter contido os seguintes elementos, que tinham seu significado especial para os judeus:

Primeiro em importância era o Cordeiro, sacrificado no Templo. Todo o seu sangue era derramado; a Lei determinava que nenhum de seus ossos fosse quebrado (Ex 12, 46 citado em Jo 19, 33-36), o que era cuidadosamente observado. O cordeiro era assado num aspecto de ramo de romãzeira, em forma de cruz, e relembrava aos judeus o cordeiro cujo sangue salvara seus ancestrais no tempo do grande Êxodo. O nome “péssach” (Páscoa) foi aplicado em especial ao cordeiro, bem como à libertação do Egito, aos festejos que a recomendavam.

Pão ázimo – matsá, no plural matsôt – era chamado o “pão do tormento”, porque feito somente de farinha e água. Representava o pão feito pelos judeus durante sua partidas apressada do Egito, quando não houvera tempo para levedar. A divisão de um grande matsá entre todos os que estavam à mesa, por duas vezes na Ceia Pascal, era expressão de união.

Ervas amargas – marór – embebidas em vinagre e sal, relembravam-lhes a amargura da escravidão e o sofrimento no Egito.

Harósset – uma mistura, de cor vermelha, de maçãs e nozes picadas, canela e vinho, relembrava a argamassa usada pelos judeus na construção de palácios e pirâmides no Egito, durante os períodos de trabalho forçado.

Vinho – assim como o pão ázimo repartido, o vinho, retirado de uma vasilha ou bebido de uma taça comum, expressava a unidade do povo, sua irmandade como filhos de Abraão e co-herdeiros da Promessa. Quatro cálices são bebidos durante a refeição porque o livro do Êxodo (6, 6-7) registra quatro verbos diferentes, todos significando redenção, proferidos por Deus quando enviou Moisés para libertar o seu povo. São eles:

– eu vos retirarei (do Egito) : é o 1° cálice, “da Santificação”;

– eu vos libertarei: é o 2° cálice, “da Redenção”;

– Eu vos resgatarei: é o 3° cálice, “da Bênção”;

– eu vos receberei (por meu povo): é o 4° cálice “da Aceitação”.

As “bênçãos” dos alimentos – não eram “benzimento”, mas expressão da ação de graças a Deus por suas dádivas e do reconhecimento de que tudo vem do Senhor e a Ele deve ser reconduzido.

A Hagadá, relato da libertação do Egito – está triunfantemente narrada no livro do Êxodo. A palavra Haggadáh significa “narrativa”. Deus ordenou que essa história fosse conservada viva entre nós:

“E naquele dia contarás a teu filho, dizendo: Eis o que o Senhor fez por mim, quando saí do Egito” (Ex 13, 8).

Os salmos Hallel (salmos 113-118; vulg. 112-117) eram cantados como ação de graças e louvor a Deus, pela libertação conseguida.

Esperamos por meio desta formação de cunho mais informativo que formador termos dado algumas luzes sobre o que ocorreu naquele dia principal em que Cristo Entregou-se por amor a nós.

(Arte: Lindomar Santos de Sousa)

Fonte: Vida Celebrada