História da Padroeira

Mais um 08 de setembro, data em que a Liturgia celebra a Natividade de Maria Santíssima. Esse dia também é adotado por inúmeras comunidades para a celebração de Nossa Senhora, sua Padroeira, sob os mais variados títulos (que não possuem uma data própria oficial para sua comemoração). Assim também acontece na cidade de São Paulo, que, tradicionalmente, festeja a sua Padroeira, Nossa Senhora da Penha, aos 08 de setembro, há quase 350 anos, ainda que não com as mesmas proporções de outrora.

Sabe-se que a devoção a Nossa Senhora da Penha teve início no século XV na Europa. Segundo a tradição, um monge, de nome Simão Vela, teve uma visão, em sonho, de uma imagem de Nossa Senhora que lhe apareceu no cimo de uma serra. Durante o êxtase, uma voz convidava Simão a encontrar tal imagem. Em 1434, no alto de uma serra denominada “Penha de França”, na Província de Salamanca, norte da Espanha, Simão encontrou a tão almejada imagem da Mãe de Deus. Foi, então, ali erigida uma ermida que deu origem a um grande Santuário, afamado pelos prodígios realizados pela Virgem da Penha.

No Brasil, a invocação “Nossa Senhora da Penha” surge, primeiramente, no Espírito Santo e no Rio de Janeiro (sempre associada a penhascos, porém com raiz histórica diferente daquela de Salamanca). Na cidade de São Paulo a devoção à Senhora da Penha tem início em 1667.

O intento destas linhas, entretanto, é ater-se a uma história curiosa, na verdade um feito miraculoso operado pela Mãe de Deus em benefício do povo humilde e fervoroso, por meio da sua prodigiosa imagem presente no Santuário paulistano da Penha há centenas de anos, numa época em que essa devoção dava ainda seus primeiros passos na Capital no século XVII. Trata-se, sim, de um milagre entre os infindáveis relatos de graças e prodígios registrados na Penha, onde se encontra a veneranda imagem milagrosa da Virgem. Tal episódio não é conhecido ou ficou esquecido no tempo pelos devotos de Nossa Senhora da Penha, leigos ou clérigos. Não houve difusão do mesmo por parte do clero ou dos romeiros. As informações preciosas que sabemos acerca do ocorrido nos são fornecidas pelo historiador penhense Sylvio Bomtempi em sua obra Penha Histórica. Vamos, pois, aos fatos.

 

O MILAGRE

Muito antes que a Penha se tornasse um bairro conhecido pelo clima agradável e ameno, propício para o tratamento, num passado distante, de doenças respiratórias; muito antes da elevação da antiga Igreja da Penha à condição de Santuário Mariano e da fama de “Colina Santa” que o outeiro da referida igreja recebeu; muito antes da Penha de França ser tida como o “Bairro dos Milagres”, “Bairro-Santuário” ou “Cidadela religiosa dos paulistanos””, com suas ruas estreitas e antigas repletas de lojas de artigos religiosos ou de vestidos de noivas em vista da grande quantidade de  pagamento de promessas e casamentos realizados no Santuário; muito antes que a afamada imagem milagrosa de Nossa Senhora da Penha fosse transladada por diversas vezes, a pedido do povo de São Paulo, para a Catedral da Sé ou a Câmara Municipal, para sanar as epidemias, secas ou outras epidemias que assolavam a cidade, resultando em sua aclamação popular como Padroeira da cidade de São Paulo; muito antes de ser aberta a conhecida e hoje “nervosa” Avenida Celso Garcia, ligando o centro da cidade ao bairro da Penha, para favorecer as transladações da imagem milagrosa para a Sé ou o afluxo de romarias e peregrinos ao Santuário da Penha; muito antes de a Festa da Penha se tornar um dos maiores acontecimentos da São Paulo de outrora, com centenas de milhares de romeiros vindos dos mais diversos pontos da Capital e de outros lugares, numa magnífica manifestação de religiosidade popular (com uma das maiores procissões da época) e de diversões profanas, que refletiam e interferiam em todo o cotidiano da cidade, desde a rede de transporte público (bondes) até a rede hoteleira e comercial; muito antes do 08 de setembro ser, antigamente, “feriado e dia santo” no bairro da Penha; muito antes da construção da bicentenária Igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos da Penha de França nos tempos da escravidão; muito antes dos missionários redentoristas assumirem a Paróquia da Penha, dando projeção e consistência à devoção a Nossa Senhora e à comunidade local, resultando, na construção de seminários, de colégios e de capelas, na reforma do Santuário antigo e, finalmente, na edificação da atual e apenas recentemente concluída Igreja Matriz nova, que se destaca por suas proporções monumentais, podendo ser vista de diversos pontos da Cidade; muito antes de São João Paulo II elevar a referida igreja à dignidade de Basílica, oficializando Nossa Senhora da Penha como Padroeira da cidade de São Paulo; muito antes de haver uma Sala dos Milagres oficial, mesmo com os incontáveis ex-votos registrados ao longo dos séculos, testemunhas do poderio divino manifestado em Nossa Senhora; muito antes do Santuário de Nossa Senhora da Penha ser elevado a Santuário Eucarístico Diocesano; muito antes de o bairro da Penha de França se tornar o atual complexo residencial, comercial e religioso, com todos os seus encantos, potenciais e problemas sociais, mas que ainda conserva, no meio da agitada Metrópole paulopolitana, alguns resquícios de “cidade do interior”… Muito antes de toda essa riqueza se consolidar como um “repertório” da história devocional de Nossa Senhora da Penha em São Paulo, o fato extraordinário a que nos referimos no início deste escrito já havia ocorrido.

 

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O milagre em questão é o segundo atribuído a Nossa Senhora da Penha. O primeiro está diretamente relacionado com a origem da Capela e do bairro da Penha em São Paulo. Consiste esse primeiro milagre na narrativa místico-lendária, apregoada pela piedade popular por séculos e parte do folclore paulistano, segundo a qual um viajante francês, nos idos de 1667, passando pelas altas terras onde está o atual bairro da Penha de França, então uma região de paragem de tropeiros e peregrinos, pernoitou por lá. Devoto da Virgem, trazia consigo uma imagem de Nossa Senhora da Penha, seu tesouro. Naquela noite, teria o piedoso peregrino sonhado ou pressentido que a Virgem se tornaria Padroeira da Cidade centenas de anos mais tarde? Nunca saberemos… Na manhã seguinte, tomou a imagem junto com sua bagagem e prosseguiu sua caminhada rumo ao Rio de Janeiro. Conscientizou-se, já distante, que a imagem não estava mais consigo. Voltando, apreensivo, encontrou-a no local onde passara a noite. O episódio se repetira mais vezes. Atento aos sinais do Alto e à vontade de Maria Santíssima, o viajante ergueu ali, no alto daquele penhasco, uma capela em honra da Virgem da Penha, que passou a operar numerosos milagres, dando origem, mais tarde, ao Santuário e ao bairro. A versão histórica, contudo, reza que o Padre Jacinto Nunes Siqueira ergueu, em 1668, no alto da referida colina, uma capela em honra de uma imagem da Virgem da Penha, a qual originou, posteriormente, o conhecido Santuário e o bairro homônimo.

Enfim, o milagre para cujo relato os parágrafos anteriores nos prepararam e o qual motiva este artigo, tido como o segundo realizado por Nossa Senhora da Penha de França em seu Santuário da Capital paulista tem registros e respaldo de elementos históricos. Era o ano de 1685, pouco após o óbito do Padre Jacinto Nunes de Siqueira. O então bispo do Rio de Janeiro, Dom José de Barros de Alarcão, em visita pastoral a São Paulo, onde permaneceu por alguns anos, deixou um legado de imposição de novas e excessivas taxas eclesiásticas e descontentamentos daí resultantes. Uma de suas obras na região central da cidade foi a construção de um Recolhimento para religiosas. Ciente da popularidade e do apego devocional de grande parte da população paulistana a Nossa Senhora da Penha, decidiu Dom Alargão transferir a bendita imagem da Virgem de sua capela no longínquo e bucólico bairro da Penha para a Casa que ele já idealizava como “Recolhimento de Nossa Senhora da Penha”. Com isso, o Recolhimento ganharia fama e riqueza, pois o nome e a imagem da Senhora da Penha eram tão conhecidos e prodigiosos que dispunham de uma quantidade significativa de bens e donativos oferecidos pelos devotos em agradecimento por graças alcançadas.

A decisão do Bispo recaiu como um apocalipse sobre os humildes moradores da Penha, que não se conformavam ou aceitavam separar-se de sua Mãe querida, representada em tão privilegiada efígie.

Chegando o trágico dia previsto para a lastimosa transladação da imagem para o Recolhimento, numerosas mulheres piedosas acorreram à capela logo cedo, tal como Madalena indo ao sepulcro na manhã da Ressurreição. Encontrando a capela com a porta fechada, caíram, de joelhos, em desesperado pranto, acreditando já ter sido levada, às escondidas, a bendita imagem para a Cidade. Uniram-se a essas mulheres, em pouco tempo, um sem fim de devotos, que, com o coração tomado por sentimento de orfandade e abandono, derramavam lágrimas enquanto elevavam preces e clamores doridos. Seria este o destino frustrante daquele povo simples, que encontrava na fé a motivação maior de suas vidas e a alegria de seus dias em local tão abençoado?

E aqueles homens e aquelas mulheres puderam verificar que, no alto do altar-mor permanecia, intacta, a imagem prodigiosa de Nossa Senhora da Penha, como que sinalizando aos seus filhos que a vontade divina prevalece sobre a humana…

Tendo a Virgem Maria escolhido aquele penhasco para sua morada, nada e ninguém poderia ir contra sua santa vontade. Assim o fez o viajante francês, que compreendeu o desejo de Nossa Senhora de ali permanecer e realizar sinais em favor dos seus filhos, tornando aquele lugar um espaço privilegiado de encontro com Deus. Poderia uma determinação episcopal, movida sobretudo por interesses pessoais e desejo de fama, ser mais forte que a vontade da Mãe de Deus, que decidira ali permanecer com seus filhos? Evidentemente que não! E eis que, em meio às lágrimas de todos aqueles primeiros devotos da Virgem, a porta da Capela, sem que ninguém a tocasse, milagrosamente se abriu, talvez movida pelas mãos invisíveis dos anjos do Senhor. E aqueles homens e aquelas mulheres puderam verificar que, no alto do altar-mor permanecia, intacta, a imagem prodigiosa de Nossa Senhora da Penha, como que sinalizando aos seus filhos que a vontade divina prevalece sobre a humana, e que o Senhor Deus Libertador é do lado dos pobres, dos humildes, tal como Maria canta no seu Magnificat. O que era pranto tornou-se risos, louvores e gritos de vivas a Nossa Senhora da Penha, acompanhados por lágrimas agora motivadas pela alegria e pela satisfação de mais uma graça alcançada. E da Penha de França nunca mais a imagem da Virgem saiu a não ser que fosse para aplacar as intempéries que recaíam sobre a cidade. Encontra-se ela, até hoje, exposta no nicho central da Basílica, onde é visitada e contemplada por seus devotos. O milagre assim estava feito, tornando-se conhecido e comentado, ainda que não tenha chegado com a mesma popularidade a nossos dias.

A História registra que Dom Alargão, ante a oposição irrevogável do povo da Penha e mesmo não dando crédito ao fato da porta que sozinha e inexplicavelmente se abriu, abandonou seu plano de remoção da imagem e deu o nome de Santa Teresa ao Recolhimento que havia fundado na região central da cidade.

PORTA DA MISERICÓRDIA

O emocionante fato que acima narramos nos reafirma Maria como Mãe de Misericórdia, particularmente neste Ano Santo, proclamado pelo amado Papa Francisco. Celebrada na Liturgia e na piedade popular e figura de grande importância na Teologia, a pessoa de Maria alimenta, sustenta e fortifica a fé e as ações pastorais das comunidades cristãs espalhadas por todo o planeta, cumprindo-se aquilo que Ela profetizou: “…todas as gerações me proclamarão bem-aventurada…” (Lc 1,48). Ora, quantos não são os logradouros, vilas, bairros, cidades e nações, tais como a Penha, que se originaram em torno de uma gruta, oratório, capela, igreja ou santuário dedicados à Mãe de Deus? Quiçá tais povos nascidos sob a proteção do olhar misericordioso de Nossa Senhora cultivem entre si a mesma misericórdia divina revelada por Ela…

Neste Jubileu Extraordinário da Misericórdia, é oportuna a prática da peregrinação a igrejas que possuam a Porta Santa, símbolo do próprio Jesus Cristo misericordioso. Fazendo a experiência da passagem pela Porta Santa (que existe, inclusive, no Santuário e na Basílica da Penha, em São Paulo), recordemos a invocação que fazemos à Mãe de Deus na Ladainha de Nossa Senhora: “PORTA DO CÉU”.

Com efeito, por Maria, chegamos a Jesus, nosso Rochedo, nossa Rocha, nosso Penhasco, nossa Penha… Maria é, pois, aquela que, tal como no episódio milagroso do Santuário da Penha, abre-nos as portas do céu, o Santuário eterno e por excelência. As chaves para essa abertura, Ela nos dá à medida em que nos aponta o Filho que traz em seus braços, O qual nos convida a experimentar da sua eterna misericórdia e, a partir dessa experiência, sermos sinais e testemunhas dela através de gestos libertadores de caridade, opositores corajosos da cultura de morte e que não contempla a vida plena conquistada e desejada por Jesus a toda pessoa humana.

Abri para nós, oh doce Mãezinha, mais uma vez e sempre que a Vós nos confirmamos, as portas deste mundo e, sobretudo, a Porta do céu. Assim seja.

Leonardo C. de Almeida
Associado da Academia Marial de Aparecida

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