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Itabira, 17 de junho de 2021

Legado da Conferência dos bispos de Aparecida (SP) e magistério do Papa inspiram renovação do Celam

20/05/2021 . Notícias da Igreja

A 38ª Assembleia Geral do Conselho Episcopal Latino-Americano (CELAM), marcada pelo processo de Renovação e Reestruturação, começou nesta terça-feira, 18 de maio, reunindo cerca de 85 representantes da Igreja da América Latina e do Caribe, de forma virtual, até à próxima sexta-feira, 21 de maio. Desde o início, a assembleia foi colocada nas mãos de Nossa Senhora de Guadalupe, e os participantes ouviram os discursos de dom Miguel Cabrejos, dom Luis Mariano Montemayor, cardeal Oullet e dom Ruben González.

O presidente do CELAM, dom Miguel Cabrejos, recordou que “apesar da pandemia que não nos paralisou”, foi elaborado um documento de Renovação e Reestruturação, num exercício de “comunhão, colegialidade, eclesialidade, sinodalidade e com os ouvidos do coração abertos para escutar o que o Espírito Santo diz às Igrejas”.

Dom Miguel Cabrejos definiu o que é o CELAM e os elementos que devem estar presentes nele, bem como o seu papel e fontes de inspiração. O arcebispo de Trujillo propôs formas de trabalho “articulado e transversal, gerando sinergias de uma forma integral e integradora”. Segundo ele, o CELAM é chamado a deixar-se guiar pelo Espírito Santo nesta tarefa de discernimento para o trabalho de renovação de estruturas, segundo o Núncio Apostólico na Colômbia, que destacou o papel da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA).

Por seu lado,  o prefeito da Congregação para os Bispos na Santa Sé, cardeal Marc Oullet, agradecendo os esforços do CELAM, recordou a ênfase do Papa Francisco  no apelo à construção de pontes, ao compromisso missionário, ao serviço a partir de baixo, ao serviço das estruturas, a centralidade da oração na vida cristã e ao encorajamento da cultura vocacional, recordando que a pandemia mudou a vida quotidiana das nossas comunidades.

Numa breve meditação, diretor interino do Centro de Ação Pastoral e Redes do CELAM, Mauricio Lopez, salientou a necessidade de partir da encarnação, de pensar em rostos concretos, de olhar para eles a partir da Trindade, assumir, recordando as palavras do Papa Francisco, que a vocação do CELAM é servir com paixão. Por esta razão, Maurício Lopez recordou o que foi dito no Mandato de Tegucigalpa, chamando a ouvir, a estabelecer relações, a oferecer formação, algo que está presente na Assembleia Eclesial.

Neste primeiro dia, foi feita uma análise da realidade social e eclesial. Na dimensão social, Agustín Salvia apresentou o estudo realizado pelo próprio CELAM, onde a questão social é analisada sob a situação da pandemia da Covid-19 na América Latina e no Caribe, uma análise que pode ajudar de forma decisiva na construção do futuro da Igreja no continente. Em sua análise chamou a atenção ao fato de que “as sociedades latino-americanas são atravessadas por dívidas sociais históricas e que, tanto ontem como hoje, são necessárias mudanças de estruturas, porque o nosso sistema econômico, social, político e ambiental não é apenas injusto, mas também insustentável”.

Presidente do CELAM, dom Miguel Cabrejos na coordenação da Assembleia do organismo. Fotos: Comunicação Celam.

A Igreja na América Latina à luz de Aparecida

A análise eclesial, realizada por Austen Ivereigh, partiu de um olhar contemplativo sobre a realidade a partir das prioridades pastorais de Aparecida. Nas suas palavras reconheceu “a clareza e audácia das propostas” elaboradas para concretizar o processo de renovação e reestruturação do CELAM, mas ao mesmo tempo fez-nos compreender que “o que falta é a consciência de que, pela unção do Espírito Santo, a Igreja latino-americana é agora a fonte da Igreja universal, e que os processos sinodais que aqui foram postos em marcha não são exclusivamente para o bem do povo e da Igreja latino-americanos, mas são um tesouro para a Igreja universal”.

O jornalista britânico recordou as palavras do cardeal Bergoglio na preparação de Aparecida, onde refletiu “sobre o papel profético a que a Igreja latino-americana foi chamada”, chamando a perceber “uma nova experiência de Pentecostes que transformaria a consciência da Igreja sobre a sua missão nas circunstâncias atuais”. Estamos perante “um vento do Sul que abre o centro para a periferia com a chegada de Francisco ao pontificado”, afirmou Ivereigh.

A sua chegada à cátedra de Pedro levou Francisco a “tentar partilhar e promover em toda a Igreja o processo de Aparecida, o processo sinodal”. Este elemento é tão notável que o biógrafo do Papa afirma que “os historiadores dirão que esta tentativa de gerar uma Igreja sinodal tem sido a contribuição mais importante do pontificado de Francisco”. Trata-se de “recuperar a essência da identidade da Igreja”, que não é nem uma monarquia imperial nem uma democracia, mas “uma assembleia eclesial que escuta, discerne e procura sofrer tensões e discórdias, na expectativa da ação do Espírito”, uma dinâmica em que o povo e o Espírito não podem estar ausentes.

A experiência do CELAM, que Austen Ivereigh descreve como “o único exemplo contemporâneo bem sucedido de sinodalidade no nível continental ao longo das décadas”, deve ser conhecida e compreendida pela Igreja universal, para que possa ajudar a promover “a primavera sinodal de Francisco”, algo difícil dada a sua pouca experiência, o que o levou a refletir sobre a forma como a sinodalidade está sendo vista nas diferentes igrejas. Esta dinâmica sinodal pode ajudar a superar lutas e modelos que estão presentes na Igreja há séculos, afirmou o jornalista.

Ele também fez o CELAM ver a necessidade de “partilhar melhor a sua experiência de sinodalidade”, tanto os frutos como o caminho que percorreram. Para isso, é decisivo “investir recursos numa estratégia de comunicação ad extra, uma campanha midiática para explicar os processos”.

Falar de um olhar contemplativo sobre a realidade a partir das prioridades pastorais de Aparecida, faz-nos entrar na hermenêutica do Bom Pastor e do discípulo, segundo Austen Ivereigh, que recorda que “as grandes tendências identificadas em Aparecida foram acentuadas de uma forma dramática”, como afirma o documento elaborado para esta assembleia.

O jornalista salientou que “a grande percepção de Aparecida era que já não se podia confiar em instituições apoiadas pelo direito e pela cultura para transmitir a fé, mas que se tinha de criar a partir de baixo”, criticando que “as estratégias para ganhar espaço no Estado e na lei têm sido fatais para a evangelização”.

O enfraquecimento progressivo da ordem liberal e a ascensão do nacionalismo e do populismo são considerados por Austen como as grandes mudanças desde Aparecida, insistindo na realidade da atual pandemia, que tem servido “para lançar luz sobre os muitos lugares de negligência e dor nas nossas sociedades, bem como para expor as prioridades e os valores das nossas classes dirigentes”. É uma época de “grande aceleração e aprofundamento das grandes oposições existentes”, que desafia a Igreja a ser “complexio oppositorum”, criando “uma maior consciência da necessidade de mudança”.

Neste momento, o jornalista britânico afirma que “os próximos anos serão muito frutuosos para a Igreja”, nos quais a religião deve restabelecer laços, criar relações de confiança e afeto entre as pessoas, criar laços de fraternidade e amizade social, algo que a Igreja deve realizar “a partir da periferia, do povo”, insistindo na sua análise que “o que o Papa vê é o despertar da consciência da dignidade do povo, um processo acompanhado e tornado possível pela Igreja presente entre o povo”, algo vivido pelo cardeal Bergoglio nos seus anos como arcebispo de Buenos Aires.

Por esta razão, Ivereigh insiste que a chave do futuro, do caminho para 2033 que o CELAM empreendeu está na “Igreja que acompanha o povo na periferia, recordando-lhe a sua dignidade que nasce do encontro com o Senhor, e fortalecendo o seu protagonismo”. Trata-se de apostar “na Igreja no meio do povo, na periferia, confirmando na sua pregação e nas suas ações de caridade e na sua liturgia o amor e a misericórdia de Deus, que desperta no povo um sentido da sua dignidade, que o motiva a organizar-se para ter acesso à terra, à habitação e ao trabalho”.

Finalmente, insistiu novamente na sua interpelação comunicacional, para partilhar a experiência pastoral latino-americana, porque “é isso que a Igreja universal precisa de ouvir de vós, para abrir horizontes de esperança, para inspirar e encorajar, para saber que há outra possibilidade”. Ivereigh afirma inequivocamente que “estamos numa mudança de época eclesial”, onde a Igreja latino-americana tem um papel fundamental, dado que “com Francisco em Roma, é também uma missão global”.

Seguindo o método teológico latino-americano, Carlos Galli iluminou a realidade com uma reflexão teológica que ajuda a compreender o processo de renovação e reestruturação do CELAM. A Igreja latino-americana sempre promoveu novidades, estando atenta à realidade social de que faz parte, querendo levar a vida ao Evangelho e o Evangelho à vida, uma necessidade ainda mais urgente neste tempo de pandemia, uma realidade que nos impressiona. A América Latina está passando por um processo de transformação religiosa, que desafia a Igreja a levar a cabo um processo de atualização frente ao desafio.

Segundo o teólogo argentino, a Igreja latino-americana tem sido pioneira em experiências de sinodalidade, com três novidades históricas, o Sínodo para a Amazônia, sem precedentes na história da Igreja, que deu origem à “Querida Amazônia” e à CEAMA e a reestruturação do próprio CELAM, a partir da novidade de Cristo que nos renova, e a Assembleia Eclesial da América Latina e do Caribe, onde estarão presentes representantes do Povo de Deus, e que começou com um processo de escuta, elemento essencial de uma Igreja sinodal.

Com colaboração do padre Modino - CELAM

CNBB