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Itabira, 18 de outubro de 2021

O testemunho de uma religiosa católica no Afeganistão

22/09/2021 . Notícias da Igreja

“A mentalidade não pode ser mudada com boas intenções, só um projeto cultural com as novas gerações pode mudar alguma coisa”. “A democracia não se exporta, se cultiva”. São palavras da Irmã Shahnaz Bhatti que estava em missão no Afeganistão e por causa da guerra teve que abandonar as crianças com deficiências que cuidava

Irmã Shahnaz Bhatti é uma religiosa da Caridade de Santa Joana Antida Thouret, originária do Paquistão. Ficou em missão no Afeganistão até 25 de agosto, quando, escoltada pelo exército italiano, conseguiu deixar o país. Deu seu testemunho à “Ajuda à Igreja que Sofre”, a fundação católica que ajuda os fiéis cristãos perseguidos.

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Qual é a sua congregação e a sua missão?

Pertenço à Congregação Internacional das Irmãs da Caridade de Santa Joana Antida Thouret. Nossa missão é o serviço espiritual e material dos pobres no estilo de São Vicente de Paulo, o grande apóstolo da caridade.

Quais foram as razões de sua presença no Afeganistão?

Como Congregação, aderimos ao projeto “Para as crianças de Cabul”, criado em 2001 para responder ao apelo do Papa João Paulo II “salvar as crianças de Cabul”, e ao qual a vida religiosa na Itália respondeu com generosidade através da USMI (União dos Superiores Maiores da Itália). Pessoalmente, eu estava em Cabul há dois anos com duas outras irmãs, Irmã Teresia Crasta da Congregação de Maria Bambina e Irmã Irene da Congregação das Irmãs da Consolata. A comunidade em Cabul é, de fato, intercongregacional. Tivemos uma escola para crianças com deficiência mental e síndrome de Down dos 6 aos 10 anos de idade e as preparamos para entrar no sistema escolar público. Trabalhavam conosco professores, zeladores e cozinheiros locais. Com a ajuda das autoridades italianas, pudemos trazê-los e com suas 15 famílias para a Itália. Eles foram acolhidos por congregações religiosas muito generosas e hospitaleiras. Enquanto que as famílias das crianças que estavam aos nossos cuidados, continuam a chamar e pedir ajuda, pois permaneceram em seus lares em perigo, como vocês podem imaginar.

A senhora poderia descrever como eram seus domingos em solo afegão?

O domingo não é reconhecido como um feriado religioso, é um dia como qualquer outro. As práticas religiosas e a Santa Missa podiam ser celebradas na Embaixada da Itália, de forma reservada.

Quais foram as principais dificuldades encontradas durante sua missão?

A primeira dificuldade foi aprender a língua local, porque no Afeganistão eles não aprendem inglês e não pode se nem mesmo ensiná-lo. Outra dificuldade era entrar em seu mundo, seus hábitos, sua mentalidade, a fim de poder dialogar e estar perto deles. A maior dificuldade era não poder se mover livremente, pois era preciso estar sempre acompanhado por um homem. Eu, que tinha que fazer a papelada necessária com bancos ou outros escritórios, tinha que ser acompanhado por um homem local. Duas mulheres não significavam nada e, naturalmente, não contavam. O sofrimento que me marcou mais fortemente, no entanto, foi ver as mulheres tratadas como coisas. Uma dor indescritível era ver mulheres jovens que tinham que se casar com a pessoa decidida pelos chefes de família contra sua vontade.

A liberdade religiosa era respeitada no Afeganistão antes da retirada dos militares ocidentais?

Não, porque para os afegãos, os estrangeiros ocidentais são todos cristãos, portanto sempre fomos controlados, não era permitido nenhum sinal religioso. Nós freiras tínhamos que nos vestir como mulheres locais e sem o Crucifixo que nos distinguiria.

Como a senhora vivenciou em agosto passado, o período entre a retirada das tropas ocidentais e sua partida para a Itália?

Era uma época muito difícil, estávamos trancadas em nossas casas e tínhamos medo. Durante mais de um ano, éramos apenas duas. Assim que foi possível, a freira que estava comigo partiu e eu fiquei sozinha até o final. Ajudei as irmãs de Madre Teresa, nossas vizinhas, a partir com suas 14 crianças com graves deficiências e sem família, para embarcar no último voo para a Itália antes dos atentados. Se as crianças não tivessem sido salvas, não teríamos saído. Temos que agradecer à Farnesina (Ministério do Exterior italiano) e à Cruz Vermelha Internacional que nos ajudaram a chegar ao aeroporto, e a presença do Padre Giovanni Scalese, que representava a Igreja Católica no Afeganistão, que não nos deixou até a nossa partida. Foi uma viagem difícil de Cabul até o aeroporto, duas horas com paradas, tiroteios, mas no final chegamos.

Como religiosa católica e como mulher, como a senhora vê a tentativa ocidental de “exportar a democracia” para o Afeganistão?

Uma mentalidade não pode ser mudada com boas intenções, acredito que um projeto cultural com as novas gerações possa mudar a mentalidade. Estamos vendo isso com as jovens mulheres que não querem abrir mão de seus direitos de liberdade, mas a formação das novas gerações é necessária. A democracia não se exporta, se cultiva.

O que a senhora gostaria de pedir aos líderes políticos dos países ocidentais mais envolvidos no Afeganistão?

Gostaria de pedir-lhes que ajudem este país a alcançar a verdadeira liberdade, que é o respeito, a promoção humana e civil, lembrando que o fanatismo religioso leva à divisão e aos inimigos, que nenhum povo é melhor que outro e que a coexistência pacífica traz bem-estar a todos.

Como podemos ajudar a população?

Podemos ajudá-los a serem pessoas livres através da educação cultural e cívica, facilitando a acolhida quando decidem deixar o país, mas também, quando as autoridades o permitem, ficando com eles. Eu seria a primeira a voltar para lá. Neste momento de emergência, poderíamos estar presentes nos campos de refugiados vizinhos e não permitir que os pequenos morram de fome, sede e doenças que poderiam ser facilmente curadas. Também devemos considerar as mulheres como pessoas dignas de direitos e deveres, mas como pessoas e não como coisas.

(Fonte: Ajuda à Igreja que Sofre)

Vatican News
Imagem capa: Pixabay