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Itabira, 24 de julho de 2021

Pio XII e a ideia de mundo ocidental

16/04/2021 . Notícias da Igreja

A contribuição que os anos do pontificado de Pio XII deram para o desenvolvimento de uma abordagem particular da situação sociopolítica internacional e para o conceito de democracia. Este é o objetivo do projeto “Occidentes” que envolve quatro universidades, como nos dizem os historiadores padre Roberto Regoli da Gregoriana e Paolo Valvo da Universidade Católica de Milão

Hoje não é fácil falar sobre o Ocidente sem cair em fórmulas estereotipadas, simplistas, retóricas e ideológicas. Compreendemos que, para isso, precisamos historiar o conceito do Ocidente. Tudo remonta ao drama do século passado: o conflito mundial e depois o mundo dividido pela Cortina de Ferro que levou a uma divisão entre uma Europa Ocidental sob a proteção dos Estados Unidos, em cujo contexto iniciou o processo de integração europeia, e uma Europa Oriental hegemonizada pela União Soviética.

A Igreja que tem resistido ao pensamento homologante  

Nos anos do pontificado de Pio XII, de 1939 a 1958, entre as visões homologantes, se distingue a da Igreja Católica que, em suas diversas articulações, assegurou uma pluralidade significativa de abordagens, tanto na Europa como nas Américas, contribuindo para manter viva a dialética entre diferentes ideias e modelos de “Ocidente”. Entrevistamos o padre Roberto Regoli, Diretor do Departamento de História da Igreja na Universidade Gregoriana.

O historiador explica que a ideia de Ocidente, não diferente da ideia de Europa, tem sido objeto desde a antiguidade das mais diversas interpretações, que tentaram definir sua extensão e limites tanto em nível territorial quanto cultural, num crescendo de complexidade, especialmente desde a descoberta do Novo Mundo americano.

No início do século XX o recurso cada vez mais frequente ao conceito de “Ocidente” era funcional para legitimar a passagem ideal do bastão da Europa para os Estados Unidos como guia moral do que convenientemente pode ser chamado de “mundo ocidental”. Porém, logo depois da Segunda Guerra Mundial os processos de interconexão econômica, política, cultural e social que atravessavam esse mesmo mundo contribuíram para moldar uma ideia de Ocidente como uma entidade orgânica, animada pelos mesmos valores básicos (como a forma democrática do Estado e um modelo de desenvolvimento econômico de tipo capitalista) alimentando um imaginário que continuou a se fortalecer nas décadas da Guerra Fria.

Nos mesmos anos deve ser mencionado o nascimento do Estado de Israel, sublinhando que em 1948 redefiniu mais uma vez as fronteiras territoriais do Ocidente, criando um posto avançado de grande valor simbólico em uma das fontes históricas e ideais da cultura europeia, Jerusalém. Um evento não sem tensões com as comunidades cristãs presentes há milênios no Oriente Médio que ajuda a entender como o Ocidente não seja um conceito territorial.

A peculiaridade do mundo católico

Padre Regoli lembra a insistência em uma ideia de democracia substancial e de participação que começou a caracterizar a reflexão e a ação do mundo católico a partir do pontificado de Pio XII, citando as diferentes experiências das “democracias cristãs”. Em particular, ele explica que se pode falar de uma visão de tipo personalista da qual deriva, mais tarde, também a abertura à dimensão da liberdade religiosa e dos direitos humanos no período conciliar.

De outro ponto de vista, acrescenta, pode-se sublinhar a atitude crítica em relação ao sistema capitalista, que ainda durante o pontificado de Pio XII – em continuidade com a elaboração doutrinária dos pontificados anteriores – levou em alguns casos, especialmente na América Latina, a cultivar o desenho de uma “terceira via” entre capitalismo e coletivismo, destinada a dar lugar a tentativas mais realistas de humanizar a economia de mercado. Além disso, no hemisfério ocidental a relação com o mundo americano, em particular com suas ambições globalizantes e as raízes protestantes de sua cultura liberal, é vivida pela Santa Sé, que com os Estados Unidos compartilha o compromisso contra a propagação do comunismo, não sem momentos de tensão dialética, na medida em que ambos reivindicam o papel de intérprete autêntico das exigências da civilização ocidental.

As sobreposições que não ajudam

Padre Regoli nos explica que a impossibilidade de uma identificação plena entre o Ocidente cristão e o Ocidente capitalista se destaca com ainda maior clareza na América Latina, onde a influência cultural, política e também religiosa dos Estados Unidos estimula – como reação por parte de setores relevantes do catolicismo local – a busca de vínculos ideais com outros modelos da civilização ocidental, diferentes dos dos Estados Unidos: a este respeito devem ser sublinhadas as referências exercidas pelo franquismo e pelo Estado Novo de Salazar, respectivamente sobre a América hispânica e sobre o Brasil.

A abertura dos arquivos do Vaticano que torna possível a pesquisa

Enquanto Paolo Valvo, pesquisador de História Contemporânea da Universidade Católica de Milão, lembra que em 2 de março de 2020 os Arquivos do Vaticano colocaram à disposição dos estudiosos os trabalhos do período de Pio XII, oferecendo assim uma valiosa oportunidade para os que pretendem examinar criticamente as ideias de “Ocidente” e “civilização” que o catolicismo ocidental – europeu, norte-americano e latino-americano – transmitiu consciente ou inconscientemente durante o pontificado do Papa Pacelli, nos mais diversos campos. O ponto principal é que se torna preciosa a possibilidade de trabalho em rede entre instituições acadêmicas reconhecidas no cenário internacional. No âmbito de uma colaboração estável e com respeito à mais ampla liberdade de pesquisa científica, possam compartilhar e integrar suas respectivas competências a fim de abrir itinerários de estudo originais e interdisciplinares.

Fausta Speranza – Vatican News

Imagem: Papa Pio XII (1939-1958)