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Uma ausência cheia de presença

Amados irmãos e irmãs, vivemos um tempo caótico e confuso em nossa sociedade diante da pandemia do COVID-19 que nos ameaça a todo tempo. Celebrando a quaresma, eis que me deparei com a celebração do domingo que, em meio ao tempo de penitência nos dá o alento de chamar à alegria. Da alegria nos vem a esperança almejada e sonhada.

Na minha experiência de celebrar a Eucaristia sem a participação do povo de Deus, me fez perceber que as incertezas que por ora passamos não nos tira o essencial da nossa fé, que é o Mistério Pascal de Cristo Jesus. Enquanto me preparava para celebrar, encontrei-me em alguns momentos de reflexão pessoal e me senti no desejo de partilhar com você, caro leitor, o conteúdo de minhas reflexões.

Primeiramente gostaria de partilhar que, nos meus momentos de estudos pessoais, retomei a leitura de um livro que li quando ainda cursava teologia, na PUC Minas, em Belo Horizonte, cujo nome é “Relatos de um peregrino russo”, de Jean Gauvain, da editora Paulus. O peregrino russo era uma pessoa simples, de trinta e três anos, exatamente a minha idade. Era um andarilho que tinha um grande sonho: aprender a rezar. Foi instruído por um monge e foi iniciado na oração pelo mesmo até o ponto de poder dizer que, pela oração nunca se sentia só e que era preciso rezar sempre, rezar sem cessar, rezar com o coração.

Ao me deparar com esta frase do referido livro, “dá ao teu corpo o alimento, ao teu espírito a leitura e ao teu coração a oração”, comecei a pensar sobre o fato de celebrar só, sem a presença daqueles que costumo estar. Assim fui me preparando para a santa missa.

Em minhas conclusões pude perceber que as situações da vida vai nos levando a experiências tão profundas que jamais imaginávamos fazer, mas que dentre estas experiências a do amor e da graça que vem de Deus é a que tem me sustentado verdadeiramente em todos os momentos.

Ao presidir a santa missa sem a presença daqueles que tenho costume de encontrar e celebrar a vida e a fé, sobretudo aos domingos, dentro de mim passou a ter uma mistura de sentimentos, um grande e profundo vazio, mas ao mesmo tempo que assim me senti pude perceber que Deus estava comunicando algo novo, não somente a mim mas a todo o seu povo.

Quando começou o canto de entrada, eu já no presbitério, quando dei o ósculo no Altar e, olhando pra frente não vi ninguém, num primeiro momento me senti incomodado com tal situação. De certa forma uma tristeza profunda tomou conta do meu coração. Mas assim que houve a comunicação entre eu, ministro do Senhor, e o Altar do santo sacrifício, passei a não mais ver cadeiras vazias, não me senti mais angustiado, mas passei a ver uma multidão que estava ali comigo, celebrando a Eucaristia. Não era uma miragem, nem muito alucinação, mas uma ausência cheia de presença, porque a graça de Deus estava naquele lugar, como sempre esteve, e o seu Santo Espírito alcançando cada pessoa, cada coração que tinha sede de estar ali rezando e, naquele momento, comigo celebrava o mistério da fé.

Naquela celebração, por um instante, pude fazer a experiência do sentir-se só, celebrando o verdadeiro sentido do sacrifício, o abandono de Jesus na hora da dor, no Calvário, na cruz. Mas, ali naquele Altar, senti mais forte em mim a certeza de vidas que estavam sendo tocadas e envoltas por aquele mistério celebrado.

Aos poucos fui percebendo ainda mais que as cadeiras não estavam vazias, você estava ali, com sua família, e comigo celebrava. Senti a comunhão com toda a comunidade eclesial e, nesta comunidade, pude contemplar muitos sonhos e esperanças, pessoas cheias de muita fé, uma fé sólida e que me dizia o tempo todo que haveremos de atravessar esse deserto e chegarmos ainda mais fortalecidos à terra prometida.

Durante toda a celebração eu nutria, em meu coração, a certeza de que a Igreja se deslocava do seu lugar físico e ia até a casa de cada pessoa, fazendo-os ver que a graça precisa ser sentida aonde estivermos e que a nossa casa também é um lugar sagrado. Nossa casa precisa ser essa igreja doméstica e nossas famílias, santuários da vida. Diante de cada palavra dita, inclusive na homilia, sabia que não estava sendo lançada ao vento, mas estava chegando a cada lar e em cada coração. Em cada cadeira, enquanto falava, não conseguia enxergar mais um vazio, mas sim sorrisos, assim como também lágrimas derramadas, de alegria ou tristeza. Assim me sentia alegre com os que alegres estavam, mas solidário aos que sofriam e choravam. No Altar do Senhor, junto as oferendas do pão e do vinho, apresentava todas as aspirações do povo de Deus: as alegrias e esperanças, tristezas e angústias.

Não celebrei sozinho e não estava sozinho. Você estava ali comigo junto a uma multidão que ali também se encontrava. Isso pude senti de coração com o desejo profundo de quem ali gostaria de estar naquele momento.

Nesta atual situação, pude notar ainda mais, como dependemos um do outro. O apelo da Campanha da Fraternidade deste ano, na Igreja do Brasil, leva-nos a tomarmos consciência que o outro é a continuidade da minha existência e que a vida precisa ser valorizada, em todas as suas instâncias, pois ela é dom e compromisso. Se faz ainda mais urgente diante da crise pela qual passamos ver, sentir compaixão e cuidar daqueles que estão mais vulneráveis de nossa sociedade.

Amados irmãos e irmãs, diletos filhos e filhas, na Liturgia Eucarística, no momento da consagração, sabe o que me confortou ainda mais? Foram as palavras de Jesus: Fazei isso em memória de mim. Foi esse o mistério da fé que rompeu todos os limites entre céus e terra. Esse mistério também não seria capaz de romper nossa distância física neste momento de crise? Claro que sim. O mistério de Deus não se limita a nenhum espaço e por isso ele nos alcança de modo a nos fazer sentir partícipes deste mesmo ato celebrativo. Senti o Senhor me dizer e gostaria que você acolhesse também essas palavras: Meu filho, minha filha, coragem, pois eu estou e estarei sempre contigo. “Permanecei no meu amor” e “eu estarei sempre convosco até o fim dos tempos”.

Obrigado por me permitir partilhar tal experiência e de poder contar com a presença de todos, mesmo na ausência.

Que Deus nos abençoe e sempre nos livre de todos os perigos e males.

23 de março de 2020

Pe. Ueliton Neves da Silva

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